Dinamarca: terapia com realidade virtual ajuda paciente a si
Um tratamento inovador na Dinamarca utilizou avatares em realidade virtual para ajudar pacientes com esquizofrenia a confrontar e superar alucinações auditivas
Um tratamento inovador na Dinamarca utilizou avatares em realidade virtual para ajudar pacientes com esquizofrenia a confrontar e superar alucinações auditivas persistentes.
Durante quase três décadas, Vibeke Andersen viveu sob o domínio de vozes que a menosprezavam constantemente. Diagnosticada aos 53 anos com esquizofrenia paranoide, ela enfrentou um ciclo exaustivo de internações psiquiátricas, enquanto as alucinações ditavam suas ações e minavam sua autoestima, chegando a afirmar que nem mesmo sua família a amava. Em 2020, Andersen aceitou participar de um experimento clínico que propunha uma abordagem inusitada: em vez de ignorar as vozes, ela deveria confrontá-las diretamente por meio de um avatar virtual.
O projeto, conduzido pela equipe de investigação VIRTU, utilizou softwares especializados para criar uma representação visual e sonora da voz dominante que assombrava a paciente. Com o uso de óculos de realidade virtual (VR), Andersen ficava frente a frente com o avatar, enquanto um terapeuta, utilizando um modulador de voz, simulava as frases que ela costumava ouvir. Segundo Louise Birkedal Glenthøj, professora associada da Universidade de Copenhague e líder do grupo, o objetivo era permitir que o paciente retomasse o poder e o controle sobre a experiência auditiva através do diálogo e do confronto.
O processo foi extremamente desafiador. Por volta da quarta ou quinta sessão, a intensidade do tratamento levou os terapeutas a cogitarem a interrupção, mas a determinação de Andersen prevaleceu. Em um momento decisivo, ela relatou ter ido a uma floresta virtual para gritar com o avatar, exigindo que as vozes deixassem sua mente para que pudesse recuperar sua liberdade como ser humano.
Andersen integrou o projeto CHALLENGE, que acompanhou 270 pessoas com esquizofrenia e alucinações persistentes no Hospital Universitário de Copenhague. Os resultados, publicados em 2025 na revista The Lancet Psychiatry , demonstraram que a terapia em VR reduziu significativamente a gravidade das alucinações após 12 semanas, com efeitos duradouros observados até a marca de 24 semanas. Glenthøj destacou a surpresa da equipe com a eficácia de uma intervenção tão curta.
Embora o tratamento seja considerado seguro, os especialistas ressaltam que a abordagem não é universal. O confronto pode ser avassalador para alguns pacientes, exigindo ajustes de ritmo e, por vezes, preparação terapêutica prévia. A hipótese central é que a “externalização” — transformar um fenômeno interno em algo visível e tangível — permite que o paciente estabeleça uma ponte entre sua vida cotidiana e o ambiente clínico, facilitando o manejo dos sintomas.
O programa VIRTU expandiu suas pesquisas para incluir transtornos alimentares, ansiedade social, autismo e depressão, adaptando os cenários virtuais conforme a necessidade de cada condição. No caso de Andersen, o sucesso foi absoluto: ao chegar à última sessão, ela percebeu que as vozes haviam desaparecido. Cinco anos após o tratamento, ela permanece livre das alucinações, mudou sua trajetória de vida e hoje estuda para se tornar assistente social, sentindo-se finalmente reconhecida como um indivíduo, e não apenas como um diagnóstico.
Olhando para o futuro, a equipe de Glenthøj explora a integração da inteligência artificial para ampliar o acesso ao tratamento. A ideia é desenvolver terapeutas virtuais baseados em IA que os pacientes possam utilizar em casa para reforçar as estratégias de enfrentamento aprendidas na clínica. Contudo, a pesquisadora enfatiza que a aplicação de IA em quadros psiquiátricos graves exige salvaguardas éticas e clínicas rigorosas para garantir a segurança dos usuários.
Fonte: pt.euronews.com