Desaparecidos em inundações no Himalaia incluíam centenas de
Cerca de 1,5 mil pessoas estão desaparecidas após enchentes na fronteira entre Nepal e Tibete, afetando devotos que realizavam a sagrada jornada de 52 km ao Mon
Cerca de 1,5 mil pessoas estão desaparecidas após enchentes na fronteira entre Nepal e Tibete, afetando devotos que realizavam a sagrada jornada de 52 km ao Monte Kailash.
Após as inundações devastadoras que assolaram a região do Himalaia na última quarta-feira, aproximadamente 1,5 mil pessoas permanecem desaparecidas. Entre os afetados, encontram-se centenas de peregrinos que realizavam a jornada rumo ao Monte Kailash, um dos locais mais sagrados para as tradições hindu, budista, jainista e Bon.
Para alcançar o destino, milhares de devotos enfrentam anualmente um percurso de 52 quilômetros, que exige a superação de uma altitude de 5.630 metros. Nessas condições, a disponibilidade de oxigênio é reduzida a quase metade do nível habitual, tornando a peregrinação ao Kailash Manasarovar uma das mais desafiadoras e significativas do sul da Ásia e do Tibete.
O Monte Kailash, situado no sudoeste do Tibete e próximo às divisas com Nepal e Índia, eleva-se a mais de 6.400 metros. O objetivo dos fiéis não é o cume, mas sim a parikrama , um circuito realizado a pé ao redor da base da montanha. Segundo a crença, completar essa volta equivale a 12 anos de penitência, sendo um ritual de purificação espiritual. Enquanto hindus e budistas percorrem o trajeto no sentido horário, os seguidores da tradição Bon o fazem no sentido anti-horário.
A importância religiosa do local é vasta. O ICIMOD (Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas) aponta que a montanha é vista como a morada de Shiva e Parvati. Para o Bon, é um centro de poder espiritual associado ao seu fundador, Tonpa Shenrab. Na cosmologia hindu e budista, o monte é frequentemente relacionado ao mítico Monte Meru, o centro do mundo.
A jornada começa em Darchen, a 4.560 metros de altitude, e dura cerca de três dias. O percurso torna-se progressivamente mais árduo, com subidas íngremes até o mosteiro de Dirapuk e o desafio crítico da passagem de Dolma La. A 5.630 metros, a escassez de oxigênio impõe riscos severos ao organismo, como confusão mental e redução da capacidade de julgamento, o que eleva o perigo em passagens estreitas.
Além dos obstáculos fisiológicos, os peregrinos enfrentam um cenário complexo de logística e política. A obtenção de autorizações chinesas para entrar no Tibete é rigorosa, com cotas limitadas. O caminho, que atravessa terrenos acidentados, passa pelo corredor do rio Bhote Koshi, justamente a área atingida pela catástrofe recente. Especialistas observam que o afunilamento de grandes grupos em rotas de alto risco torna desastres dessa magnitude mais prováveis.
O desastre teve início na manhã de quarta-feira, por volta das 8h37 no horário local, quando ocorreu um colapso glacial. Um bloco de gelo de 600 metros de largura despencou, gerando uma onda de água que transbordou o rio Bhote Koshi. A torrente destruiu infraestruturas, incluindo estradas, pontes e instalações de imigração na fronteira, arrastando tudo em seu caminho.
Dados preliminares do Conselho de Turismo do Nepal indicam que, entre os desaparecidos, há cidadãos de diversas nacionalidades, incluindo 178 indianos, 65 americanos, 53 ucranianos, 51 malaios, 35 australianos, 33 britânicos, 25 canadenses e 4 espanhóis. O guru indiano Sadhguru relatou que 77 pessoas ligadas à sua fundação estavam em um centro de imigração em Gyirong no momento do incidente.
Até o momento, as autoridades locais confirmaram a morte de pelo menos 389 pessoas. Para os peregrinos, a tragédia interrompeu uma jornada que já era, por natureza, uma prova extrema de fé, resistência física e superação das barreiras impostas pela geografia e pela política regional.
Fonte: rdnews.com.br