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A trajetória da UFMT: do isolamento no mato ao marco educaci

O médico e fundador Gabriel Novis Neves relembra os desafios da criação da UFMT, desde a escolha do terreno isolado até a busca pelo projeto de Oscar Niemeyer.

O médico e fundador Gabriel Novis Neves relembra os desafios da criação da UFMT, desde a escolha do terreno isolado até a busca pelo projeto de Oscar Niemeyer.

Quando as obras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) tiveram início, a localização escolhida gerou estranhamento em grande parte da população. O campus, situado em uma área afastada do centro urbano, era cercado por vegetação densa, poeira e um silêncio absoluto. Poucos poderiam prever que aquele cenário inóspito se tornaria o epicentro de uma das maiores transformações educacionais e culturais da história do estado.

Apesar da simplicidade das primeiras estruturas e dos obstáculos logísticos, o ambiente era movido pelo entusiasmo de servidores, estudantes e professores. A instituição floresceu fundamentada na coragem e na esperança, características comuns aos grandes projetos de desenvolvimento humano. O terreno escolhido fazia parte da antiga chácara do doutor Melo, um engenheiro que residia na avenida 15 de Novembro, no bairro do Porto.

A decisão sobre o local coube ao então governador Pedro Pedrossian, também engenheiro. A área ficava às margens de uma estrada de terra que seguia em direção ao sul do país. Naquele ponto, foi instalada uma placa imponente que anunciava: 'Futuras instalações da Universidade Federal de Mato Grosso'.

Naquela época, a ideia de cidades universitárias ainda era uma novidade no Brasil. Inspirado pelo trabalho de Oscar Niemeyer na Universidade de Brasília (UnB), Pedrossian desejava que o renomado arquiteto assinasse o projeto do campus cuiabano. O governador buscou contato com o escritório de Niemeyer no Rio de Janeiro, em um período em que a comunicação era lenta, sem os recursos de internet ou telefonia móvel que temos hoje.

Após um longo período de espera, o encontro entre o governador e o arquiteto foi concretizado. Ao ser questionado sobre o projeto da universidade em Cuiabá, Niemeyer indagou se a instituição seria privada. Ao ser informado de que se tratava de um projeto do Governo Federal, o arquiteto, que vivia o exílio e trabalhava em Argel, na Argélia, explicou sua situação política. Pedrossian, com sua habitual determinação, assegurou que não haveria impedimentos.

Meses mais tarde, o escritório de Niemeyer enviou um anteprojeto arquitetônico impressionante. Contudo, a proposta revelou-se economicamente inviável para a realidade da época. Apenas um dos edifícios previstos, conhecido popularmente como 'minhocão', possuía um custo de construção superior ao orçamento total do estado de Mato Grosso. O sonho precisou, portanto, ser adaptado às limitações financeiras.

Pedrossian liderou o projeto de implantação da UFMT até o dia 10 de dezembro de 1970, data em que a universidade foi oficialmente estabelecida. Após esse período, a responsabilidade de dar continuidade àquela jornada recaiu sobre outros gestores, incluindo o autor deste relato, que acompanhou o desenvolvimento da instituição até fevereiro de 1982.

Ao longo dos anos, foi possível testemunhar a vegetação dando lugar a prédios, a chegada constante de novos alunos e a expansão contínua da universidade. Hoje, ao recordar aquele terreno que antes era apenas mato e uma placa solitária, resta a reflexão sobre a quantidade de sonhos que germinaram naquele solo. Onde muitos viam apenas o vazio, os idealizadores enxergavam o futuro da educação superior em Mato Grosso.

Gabriel Novis Neves é médico e um dos fundadores da UFMT.

Fonte: midianews.com.br