Aconteceu Notícias

A política como exercício essencial da cidadania

O período eleitoral vai além da escolha de nomes; é uma oportunidade crucial para a sociedade manifestar insatisfações e exigir compromissos reais dos candidato

O período eleitoral vai além da escolha de nomes; é uma oportunidade crucial para a sociedade manifestar insatisfações e exigir compromissos reais dos candidatos.

O processo eleitoral transcende a simples tarefa de selecionar candidatos nas urnas. Trata-se, fundamentalmente, de uma janela de oportunidade para que o cidadão externe suas frustrações e exija respostas concretas daqueles que almejam ocupar cargos no poder público. A educação e o conhecimento não devem ser utilizados apenas para justificar disparidades sociais, mas sim para desvendar suas raízes e cobrar responsabilidade de quem detém a capacidade de promover transformações estruturais.

Durante a campanha, o debate público ganha força, configurando um dos raros momentos em que a coletividade pode converter descontentamentos em pressão política efetiva. O sociólogo Albert O. Hirschman, em sua vasta obra, analisou como os indivíduos reagem quando governos e instituições falham em atender às expectativas sociais. Segundo o autor, existem basicamente três caminhos: o abandono da instituição ou do grupo, o uso da voz para criticar e pressionar por mudanças, ou a lealdade, que mantém o indivíduo no projeto na esperança de que as falhas sejam corrigidas.

Na obra Exit, Voice, and Loyalty , Hirschman defende que devemos priorizar o uso da voz para questionar os políticos e transformar demandas individuais em pautas coletivas. Embora a verbalização da insatisfação não garanta, por si só, uma mudança imediata, ela é um passo indispensável para o exercício democrático. Como já pontuou o Papa Francisco, o envolvimento na política é um dever cristão, sendo inaceitável adotar uma postura de indiferença ou omissão diante dos problemas da sociedade.

O ciclo eleitoral é marcado por uma troca constante entre cobranças e promessas. Contudo, o verdadeiro desafio surge após o pleito, quando o compromisso firmado deve ser convertido em políticas públicas eficazes. Em Mato Grosso, o cenário eleitoral é vasto: são 2,63 milhões de eleitores aptos a escolher entre seis candidatos ao governo estadual, dez postulantes ao Senado, uma candidatura à Presidência da República, além de 136 nomes para a Câmara Federal e 264 para a Assembleia Legislativa.

Com tantas opções registradas junto ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), não faltam alternativas para o eleitor. O momento exige que a população esteja atenta para ouvir e, acima de tudo, para exigir propostas claras que solucionem os gargalos do Estado. Optar pelo afastamento da política é, na prática, escolher a saída, mas essa omissão não anula os efeitos das decisões políticas, que continuarão sendo tomadas em nome de todos, independentemente da participação individual.

Para a teoria de Hirschman, o silêncio diante da política é uma escolha deliberada, mas é um equívoco acreditar que ela não possui relevância. A política impacta diretamente o cotidiano, desde a gestão do saneamento básico e a eficiência dos hospitais públicos até a definição do valor do salário mínimo. É comum observar que muitas demandas sociais se repetem eleição após eleição, sem encontrar solução.

Por isso, o período de campanha deve ser encarado como um momento de troca política, onde a verbalização das carências e das expectativas da população deve ser confrontada com as respostas institucionais. É fundamental que os eleitores estabeleçam prioridades claras diante dos problemas que já são amplamente conhecidos por todos os candidatos, garantindo que o debate eleitoral cumpra seu papel de transformar a realidade social.

Fonte: rdnews.com.br